O pai e o herói

 Cartoon Studio | Dreamstime.com, em 16/02/2026

Estávamos há umas duas horas viajando de volta para casa.

No banco de trás, os filhos discutiam quem, para eles, era o maior herói do cinema.

De tempos em tempos, o mais velho perguntava:

- Pai, quando vamos dar uma paradinha?

- É pai, quando vamos parar? A irmã repetia.

- Quando a gasolina estiver acabando, eu dizia.

- E falta pouco? perguntava o menino.

- É pai, falta pouco?

- Tá quase.

Na verdade, o tanque ainda estava mais de meio. E, por razões que não convém agora dizer, eu sempre fui avesso a tanque cheio. 

Os filhos voltavam a discutir sobre os heróis. Mas, minutos depois, de novo; lembrando o burrinho do Shrek.

- A gasolina tá acabando, pai? O menino.

- É pai, tá acabando a gasolina? 

- Quase.

Era a primeira vez que ouvia tanta vontade que a gasolina acabasse – e logo vindo de duas crianças.

- E aí, pai, vamos parar agora? Tô com fome.

- Vamos, né, pai? Eu também.

- Falta pouco.

Ainda bem que existiam os heróis do cinema no meio que os entretinham e me livravam de uma parada forçada.

E foi assim durante quase toda a viagem.

Até que resolvi parar em um posto que tinha um preço mais acessível. O que também me convinha a fim de economizar alguns centavos de reais - e de acabar com a ladainha da paradinha das crianças também.

Ao estacionar o carro, eis que uma viatura do Corpo de Bombeiros para ao nosso lado. As crianças não se contêm ao ver os militares. Eram dois, com uniforme alaranjado e listas amarelas e pretas fosforescentes.

- Olha, lá, pai, os bombeiros! O menino.

- Heróis de verdade que o vovô diz!

Não teve jeito. Tive de chamar um dos policiais para falar com eles. O mais jovem atende ao pedido e gentilmente se aproxima:

- Cadê sua máscara? O menino, de cara.

- Deve ser que nem a do Homem-Aranha!

Surpreso, o jovem militar logo corresponde ao imaginário das crianças.

- Não, eu não tenho máscara.

- Você não é um herói? Todo herói usa máscara. O menino.

- Sim, você é um herói, o vovô que disse! 

Sorridente e gracioso, o soldado responde:

- Não sou exatamente um herói.

- Mas você salva vidas e quem salva vidas é herói, ué! O menino.

- É, o vovô disse. 

- Ah, tá! Mas eu não uso máscara, nem capa, uso roupas de proteção.

- Então você não é que nem o Homem-Aranha, o Batman, Super-Homem? O menino.

- É, eles usam disfarce para não serem reconhecidos pelos bandidos, né pai? 

Com o que eu não podia deixar de concordar, evidentemente. Afinal, ali estava o herói que o vovô sempre dizia quem era.

Mas, não podendo dizer outra coisa, o militar responde:

- Até que gostaria, mas infelizmente não sou.

Mas o menino não deu trela:

- Quando crescer quero ser que nem você, um herói com roupas de proteção.

- É, eu também. Não gosto muito de disfarce, nem de capas.

Sempre gentil, o jovem militar vira-se para mim e leva a mão ao meu ombro. Em seguida diz:

 - Ah, mas vocês já têm um grande herói aqui.

As crianças riem:

- O papai? Coitado, ele é só um professor. O menino.

- Professores não usam máscaras nem roupas de proteção.

Embaraçado, o militar tenta contemporizar:

- Mas, ao ensinarem pessoas, professores também salva vidas. 

As crianças parecem ter sentido a metáfora do soldado. Olham para o pai em silêncio. E o soldado resolve se despedir, com um chauzinho.

Já dentro da viatura, faz um convite para conhecermos o batalhão.

- Nós vamos, né, pai? O menino.

- É, nós vamos, né, papai?

Como eu podia dizer que não para os meus filhos. Afinal, crianças veem o mundo como o mundo se aparece para elas. Um mundo onde professores não consta da categoria de herói.

- Vamos, claro!

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