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Um drama do demônio

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Quem é professor de literatura sabe (talvez dissimule, mas sabe, sim) como é difícil introduzir os estudos do gênero dramático (teatro) num primeiro ano de Ensino Médio. Mais ainda, se ficarmos só com o que os livros didáticos nos dão. Gil Vicente e suas farsas e autos em português arcaico se torna um drama real (com perdão do trocadilho) para a maioria dos jovens alunos. Insisti por algum tempo, mas não deu. A coisa não fruía. Fui à caça de obras do gênero em linguagem moderna. Eu tinha de fazer algo novo. E o novo eram ao autores modernos. Não me faltaram opções. Entre tantas encontrei também O Santo Inquérito , de Dias Gomes, publicado pela primeira vez em 1966. O texto chega a ser até ingênuo, embora de uma proposta teatral enriquecedora, o que me levou a sugeri-lo entre as leituras para os primeiros anos. A obra certa para o ensinar certo, pensei. Um belo exemplo de drama (atos, rubricas e indicações cênicas singulares), o conflito entre religião, fé e pecado (tema r...

Gramática e atuação

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Era um terceiro ano do Ensino Médio. Sala lotada. Iniciei a aula abordando, como previsto, o ensino da Gramática. No dia anterior, tinha sido alvo de críticas ao meu método de abordagem em uma reunião pedagógica da qual havia participado. Me apoiei em Celso Luft, um dos renomados gramáticos brasileiros contemporâneos. Em sua Moderna Gramática Brasileira, ele afirma: - “Enquanto esquema natural da vida humana e código de linguagem verbal específico do ser humano, a Língua existe na cabeça de cada um de nós”. Pode parecer estranho, mas falar de Gramática em sala de aula para jovens alunos sempre foi algo muito arriscado para os professores de português. Realmente não é fácil lidar com a questão. Talvez porque esta tenha sido apresentada sistematicamente a eles, professores e alunos, ao longo dos anos como um conjunto de normas (regras) padrão e único. O conservadorismo pedagógico no ensino de Gramática age como inseto na plantação: destrói toda e qualquer avanço científico...

Quando tudo começou

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Sem ser de costume, um dia vi minha mãe arrumando meu irmão mais velho com roupa de sair. Depois, pegou um caderninho, uma cartilha do ABC, um lápis com borracha e uma régua e botou tudo numa pequena mochila tiracolo que ela mesma fizera. Depois disse com carinho e orgulho, colocando a mochila no ombro dele: - Agora você vai estudar. Eu não sabia o que era estudar. E duvido que meu irmão também soubesse, mesmo sendo mais velho, porque ele não parecia muito entusiasmado com a novidade. Mas foi assim mesmo. E eu corri para ver a partida da porta. Mas ele não andou tanto assim para chegar à escola – Isso mesmo, escola , porque era numa escola que se estudava, era o que a mãe dizia sempre.  Para minha surpresa, a tal escola ficava quase do outro lado da rua, no sítio onde morava a comadre da minha mãe. Surpreso porque minha mãe também sempre dizia que a escola mais perto de casa ficava bem longe. Num bairro de gente rica. A comadre da minha mãe era uma jovem chamada Maria q...

A predisposição como estímulo

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Competência é tudo aquilo que adquirimos, de forma natural ou social. Habilidade são as diversas maneiras com as quais realizamos as nossas competências. Ambas podem ser conquistadas, doadas ou ensinadas. Mas jamais rejeitadas. Às vezes, o sujeito tem pouca competência, mas tem boas habilidades. Outras vezes, ainda que as competências sejam vastas, a ausência de habilidades o torna apagado. Uma receita de bolo é uma das competências de que o boleiro precisa para executar bem a tarefa de fazer um bolo. Outras podem lhe ser também muito úteis para tal realização: os ingredientes, os utensílios e aparelhos e um bom ambiente de trabalho, por exemplo. Ao fazer o bolo, o boleiro pôs em prática suas habilidades a partir das competências adquiridas. As competências podem ser as mesmas, mas a (s) habilidade(s) é que torna(m) o bolo diferente. No entanto, para adquirir competências doadas e/ou ensinadas, nós precisamos de uma competência ainda maior, uma meta competência: a p...

A ferradura, o casco e os sapatos

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Sabe por que o cavaleiro coloca a ferradura no casco do cavalo? Para preservá-lo diante do duro asfalto ou da estrada de pedra moldada. É o que fazemos também com nossos pés: os protegemos com sapatos ou chinelos para não machucá-los na aspereza asfáltica. Mas do que cavalo gosta mesmo é de sair por aí correndo livremente, sentido a maciez da relva e a textura da terra, a relinchar feliz, ao gosto da liberdade, com todo risco que a natureza lhe reserva. Caso tropece e caia, a naturalidade do tombo não deixará marcas, certamente: todo tropeço é natural. É assim com a língua. Nós, os cavaleiros, temos de protegê-la com uma ferradura: as normas (gramática). Principalmente quando o caminho é de asfalto formal e cheio de marcas que regram o fluxo. Precisamos usar a língua com  cuidado para não ferirmos o casco do cavalo, senão cavalos sem ferraduras seremos para muitos. O não uso da ferradura é sinal de constrangimento, de enverg...

Professores inúteis e sem amor: fui um deles

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De tanto ouvir falar que educação é prioridade, eu passei um bom tempo da vida quase me convencendo de que era verdade. Mas não é que recentemente volei a ouvir alguns dos velhos chavões que colocam a profissão de professor como algo desnecessário, irrelevante e/ou sacerdotal. E por pessoas que deveriam, pela função que exercem, serem mais cuidadosas a fim de que o que diz não vire norma e/ou pre-conceito. "Os professores são inúteis, só reclamam" , dito por um nobre vereador de uma importante cidade interiorana. "Os professores deveriam ensinar por amor e não por dinheiro" , dito por um governador de Estado. O primeiro afirmou sua verdade através de uma página de relacionamento da internet, usando como argumentos as queixas dos alunos e pais de que os professores não vão à escola e quando vão não dão aula. A verdade do outro foi dito à imprensa mesmo, com todo o poder que o cargo de governador lhe confere, diante das reivindicações dos professores em gre...

VIAGEM AO CENTRO DA TERRA

O MUNDO DE ANNE FRANK