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Conto: As descobertas de um menino

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Como toda criança pobre, o menino não tinha brinquedos de fábrica.  Para não deixar de ser criança, como todo menino que se preze, os inventava. Fazer enterro de lagartixas, atirar de baleadeira para o alto e observar formigas carregando miolos de pão para dentro do formigueiro eram alguns de seus passatempos preferidos. Quanto a escola, como ainda nunca tinha ouvido falar disso, não lhe fazia falta. Brincava. Mas um dia, sem ser de costume, ele flagrou a mãe cheia de carinho e orgulho dizendo ao irmão mais velho: - Hoje você vai para a escola, acomodando uma tiracolo que ela mesma fizera no ombro do irmão. “Escola!”, espantou-se o menino. O irmão estava até de banho tomado e vestia uma roupa nova e diferente: calça azul-marinho, camisa branca bem engomada e conga preto com meia também branca. Também não era de costume. “O que seria e para que servia ‘escola’?” Se perguntou. Desconfiou que o irmão também não soubesse, pois ele parecia um pouco incom...

Sobre trabalho, dar aulas e resignação

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O professor estava prestes a retomar o assunto sobre texto e discurso, interrompido na aula anterior pelo som da sirene, quando um aluno, do grupo dos mais reiterados, o interrompeu, perguntando: - Professor, o senhor trabalha ou só dá aulas? Raro um professor com mais de dez anos de giz na mão (e pó na cara, pois é assim que é) que já não tenha ouvido isso. Ainda mais dito assim: sem nenhum zelo de quem diz com o dizer, por ser quem diz: um jovem aluno, do segundo ano do Ensino Médio. Apenas como um ingênuo pretexto para infringir na aula. Uma esparrela, portanto, né mesmo? creditou o professor. Mas nem por isso indigna de atenção, ponderou: era preciso relevar o assunto. Precisava somente de uma boa dialética-pedagógica. Tipo assim: o que dizer e como dizer do que foi dito. Por isso, fingiu desatenção: - Não entendi, disse. - Dizem que professor não trabalha, só dá aula. Repetiu o menino, do mesmo jeito. Sem compromisso. Somente um ingênuo e ...

O cordeirinho, o lobo e a pele

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Certa vez, um jovem cordeiro que havia se distanciado do rebanho, encontrou um também jovem lobo. Tomou um susto danado, claro. Mas para sua surpresa, o lobo não parecia feroz. - Não tenha medo, cordeirinho. Quero ser seu amigo, disse o lobo. O cordeirinho ainda assim receou. Mas ao olhar bem para o lobo, que o fitava com um olhar realmente cordial, confiou. É próprio dos bons acreditar na compunção alheia. O lobo então o convidou: - Que tal darmos umas voltas pela floresta, está uma manhã agradável. O cordeirinho deu uma rápida olhada em volta e verificou que era uma manhã de fato muito agradável.  Aceitou o convite.  Estaria em segurança ao lado de um lobo, ainda que não feroz. Nada a temer. E andaram juntos por muitos horas. Até que se despediram amigavelmente e foram um pra cada lado. Noutro dia, se encontram novamente. Desta vez não por acaso. E o lobo perguntou como ele tinha passado. E o cordeirinho respondeu que havia reencontrado o rebanho...

A cigarra e a luta pelo trabalho

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Cansado de cantarolar em vão, pois já não era ouvido fazia tempo, uma cigarra macho do tipo carineta decidiu: - Preciso fazer algo para me garantir quando o inverno chegar. Não queria passar pelo vexame de mendigar como aquela mal falada cigarra dos tempos de outrora que não tendo o que comer fora se humilhar à formiga por um nicho que fosse. Mas o que fazer se só sabia cantar? Pensou um bocado ante de emergir das trevas. Viu um bando de formigas trabalhadoras (isso é só uma coincidência) suprindo o formigueiro e se dispôs a ajudar em troca de algum quinhão. Mas ouviu que havia excesso de contingente no cordão e que fosse procurar outro algo para fazer. - Posso cantar para vocês enquanto trabalham? Perguntou, já levando os dedinhos às cordas do velho banjo de quatro cordas, herança do seu tataravô. - Não insista, camarada, e veja se não nos atrapalha, o inverno tá logo ali. Tirou de letra. Não havia mal que já não tivesse espantado na vida desde que passara pela to...

Um drama do demônio

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Quem é professor de literatura sabe (talvez dissimule, mas sabe, sim) como é difícil introduzir os estudos do gênero dramático (teatro) num primeiro ano de Ensino Médio. Mais ainda, se ficarmos só com o que os livros didáticos nos dão. Gil Vicente e suas farsas e autos em português arcaico se torna um drama real (com perdão do trocadilho) para a maioria dos jovens alunos. Insisti por algum tempo, mas não deu. A coisa não fruía. Fui à caça de obras do gênero em linguagem moderna. Eu tinha de fazer algo novo. E o novo eram ao autores modernos. Não me faltaram opções. Entre tantas encontrei também O Santo Inquérito , de Dias Gomes, publicado pela primeira vez em 1966. O texto chega a ser até ingênuo, embora de uma proposta teatral enriquecedora, o que me levou a sugeri-lo entre as leituras para os primeiros anos. A obra certa para o ensinar certo, pensei. Um belo exemplo de drama (atos, rubricas e indicações cênicas singulares), o conflito entre religião, fé e pecado (tema r...

VIAGEM AO CENTRO DA TERRA

O MUNDO DE ANNE FRANK