Postagens

Duas margens de um rio

Imagem
  Sentado à margem do rio, o menino lembrava-se do que ouvira do pai tantas vezes: - Se você quer chegar à outra margem, como eu, comece a construir seu próprio barco. Ao voltar para casa, prometeu a ele mesmo: ia construir seu próprio barco. No dia seguinte, depois de terminadas as tarefas, que ficaram para ele todos os dias – primeiro o curral, as galinhas, depois os porcos - voltou à margem do rio. Arrumou o local, próximo à margem, cortou madeiras e arranjou cordas. No outro dia, deu início a construção. Lá pela terceira semana de trabalho, quando voltava da busca por mais matéria-prima para construir o barco, notou a presença de um estranho, em pé, a admirar a paisagem. Era outro menino, mais ou menos de sua idade, só que um pouco maior e bem vestido. O menino que construía o barco, no entanto, não se sentiu incomodado com aquela presença, apenas achou estranho, e retomou o trabalho. Depois de um tempo, o estranho menino virou-se e perguntou, ao vê-lo mexendo com...

O professor, o gestor e os sapos

Imagem
Antes da fala do imediato convidado, que ainda não havia entrado na sala de reunião, em sussurros, os professores da escola para a qual fui designado professor, debatiam a obrigação de ter de participar de uma das inúmeras conferências online exigidas pelo governo (parte também das obrigações de ser professor). O tema da conferência era COMO SER GESTOR EM SALA DE AULA. Ao tomar um dos lugares vazios na sala, logo um dos colegas vira-se e pergunta: - E aí, professor, qual a sua opinião a respeito? Sensação estranha me abateu naquele momento. Será que depois de tanto tempo estava ainda na cara a marca da indisciplina (foi do que me acusaram um dia, por querer fazer o certo: reivindicar direitos, já que os deveres sempre os cumpri e bem). De repente, me lembrei do meu pai, um quase semianalfabeto que me dizia sempre da tese do “gato escaldado” em situações de embaraço. Pois bem, era preciso ser gato escaldado naquele momento. Ainda mais quando se está de regresso, se assujei...

Conto: As descobertas de um menino

Imagem
Como toda criança pobre, o menino não tinha brinquedos de fábrica.  Para não deixar de ser criança, como todo menino que se preze, os inventava. Fazer enterro de lagartixas, atirar de baleadeira para o alto e observar formigas carregando miolos de pão para dentro do formigueiro eram alguns de seus passatempos preferidos. Quanto a escola, como ainda nunca tinha ouvido falar disso, não lhe fazia falta. Brincava. Mas um dia, sem ser de costume, ele flagrou a mãe cheia de carinho e orgulho dizendo ao irmão mais velho: - Hoje você vai para a escola, acomodando uma tiracolo que ela mesma fizera no ombro do irmão. “Escola!”, espantou-se o menino. O irmão estava até de banho tomado e vestia uma roupa nova e diferente: calça azul-marinho, camisa branca bem engomada e conga preto com meia também branca. Também não era de costume. “O que seria e para que servia ‘escola’?” Se perguntou. Desconfiou que o irmão também não soubesse, pois ele parecia um pouco incom...

Sobre trabalho, dar aulas e resignação

Imagem
O professor estava prestes a retomar o assunto sobre texto e discurso, interrompido na aula anterior pelo som da sirene, quando um aluno, do grupo dos mais reiterados, o interrompeu, perguntando: - Professor, o senhor trabalha ou só dá aulas? Raro um professor com mais de dez anos de giz na mão (e pó na cara, pois é assim que é) que já não tenha ouvido isso. Ainda mais dito assim: sem nenhum zelo de quem diz com o dizer, por ser quem diz: um jovem aluno, do segundo ano do Ensino Médio. Apenas como um ingênuo pretexto para infringir na aula. Uma esparrela, portanto, né mesmo? creditou o professor. Mas nem por isso indigna de atenção, ponderou: era preciso relevar o assunto. Precisava somente de uma boa dialética-pedagógica. Tipo assim: o que dizer e como dizer do que foi dito. Por isso, fingiu desatenção: - Não entendi, disse. - Dizem que professor não trabalha, só dá aula. Repetiu o menino, do mesmo jeito. Sem compromisso. Somente um ingênuo e ...

O cordeirinho, o lobo e a pele

Imagem
Certa vez, um jovem cordeiro que havia se distanciado do rebanho, encontrou um também jovem lobo. Tomou um susto danado, claro. Mas para sua surpresa, o lobo não parecia feroz. - Não tenha medo, cordeirinho. Quero ser seu amigo, disse o lobo. O cordeirinho ainda assim receou. Mas ao olhar bem para o lobo, que o fitava com um olhar realmente cordial, confiou. É próprio dos bons acreditar na compunção alheia. O lobo então o convidou: - Que tal darmos umas voltas pela floresta, está uma manhã agradável. O cordeirinho deu uma rápida olhada em volta e verificou que era uma manhã de fato muito agradável.  Aceitou o convite.  Estaria em segurança ao lado de um lobo, ainda que não feroz. Nada a temer. E andaram juntos por muitos horas. Até que se despediram amigavelmente e foram um pra cada lado. Noutro dia, se encontram novamente. Desta vez não por acaso. E o lobo perguntou como ele tinha passado. E o cordeirinho respondeu que havia reencontrado o rebanho...

VIAGEM AO CENTRO DA TERRA

O MUNDO DE ANNE FRANK